Posso poupar dinheiro com o Google Tradutor de forma viável? Uma história sobre clitóris e terras de encantar!


Sabia que o clitóris é uma iguaria tradicional na Galiza e que se realiza um festival em sua honra desde 1981? E que Mordor existe mesmo e está mais perto de si do que pensa?

Sabia que o clitóris é uma iguaria tradicional na Galiza e que se realiza um festival em sua honra desde 1981? E que Mordor existe mesmo e está mais perto de si do que pensa?
Vamos contar-lhe duas histórias que mostram que o adjetivo correto para descrever o Google Tradutor é precisamente este: viável, mas não confiável.
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Uma iguaria galega

Em 2015, para chegar a um maior número de pessoas, a pequena vila galega de As Pontes decidiu recorrer ao Google Tradutor para traduzir a página web de um festival gastronómico que lá se realiza todos os anos, a “Féria do Grelo”, de galego para castelhano. Uma vez que está a ler este artigo em português de Portugal, provavelmente já deve ter percebido de que forma é que esta decisão poderia correr mal. No entanto, para na língua galega, um grelo é apenas isso: o rebento de uma planta muito apreciado na gastronomia local, e muito cultivado na referida vila de As Pontes.
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De forma insuspeita, os organizadores do festival copiaram o resultado da tradução para castelhano no seu site e não se preocuparam mais com o assunto durante meses. Até começarem a receber várias mensagens sobre o tipo de festival que estavam a promover. É que, em castelhano, a “Féria do Grelo”, transformou-se em “Feria Clítoris” e, no anúncio do evento, havia informações tão interessantes como: “O clítoris é um dos produtos típicos da gastronomia galega. Desde 1981 (…) o festival tornou o clítoris num dos principais produtos da sua gastronomia local”.
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Como é que o Google Tradutor cometeu este erro? Basta compreender a forma como funciona. O Google Tradutor utiliza um processo chamado “Statistical Machine Translation”, ou Tradução Automática Estatística, que, de forma muito resumida, recorre a documentos, websites e outras formas de texto que já tenham sido traduzidas, e se encontrem disponíveis online, e procura padrões entre essas fontes para produzir uma tradução automática. Isto significa que a tradução que se obtém a partir deste processo reflete os termos ou frases que são mais utilizados na Internet no geral e não os mais corretos. Aliado ao facto de o Google Tradutor não reconhecer contexto, emoções ou metáforas e funcionar pior com línguas menos conhecidas foi a receita para o desastre.
Há vários exemplos de casos semelhantes que fizeram notícia, nomeadamente em 2014, na altura em que a Rússia anexou a Crimeia. Para criticar a Rússia, vários sites ucranianos começaram a referir-se ao país de forma pejorativa como “Mordor”, uma região fictícia ocupada por Sauron, o vilão da saga “Senhor dos Anéis”. A tendência espalhou-se de tal forma que, durante algum tempo, quando a palavra “Rússia” era traduzida de ucraniano para russo através do Google Tradutor, o resultado que se obtinha era “Mordor”.
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Apesar de tudo, posso poupar dinheiro com o Google Tradutor?

Tudo depende da sua finalidade.
Vai viajar para o estrangeiro durante uma semana para turismo? O Google Tradutor ou qualquer aplicação no seu smartphone são soluções mais do que adequadas. No entanto, se for fazer uma viagem de negócios, na qual se vai reunir com clientes estrangeiros e tem um grande negócio em vista, iria confiar num tradutor automático para transmitir a sua mensagem?
Tem uma série de emails de um cliente estrangeiro que os seus funcionários têm de ler? A tradução automática também pode ser uma boa opção. Mas, quando for responder a esse cliente, seria capaz de colocar o seu texto no Google Tradutor e enviar-lhe o resultado?
Gastou centenas ou milhares de euros numa campanha de marketing para que fosse perfeita. Depois de todo esse esforço, decide que quer chegar a mais clientes, por isso vai traduzir a campanha para outras línguas. Consideraria que estaria a poupar se os clientes finais não entendessem a mensagem final?
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Tudo isto não significa que a tradução automática não venha mesmo a fazer parte do futuro. A realidade parece ser mesmo essa, uma vez que, embora falhe drasticamente a nível de correção linguística, a tradução automática supera de longe os tradutores humanos num outro aspeto essencial da vida moderna: o tempo em que é realizada.
No futuro, poderemos assistir a um compromisso entre estes dois tipos de tradução, que surge na forma da chamada “Pós-edição”, uma técnica na qual um tradutor humano revê e melhora o texto criado através de uma ferramenta de tradução automática.
Em conclusão, a tradução é uma parte integral da imagem que deseja transmitir e a ponte que o liga a todo um novo mundo de possibilidades. Confiaria esta responsabilidade a qualquer um?

Fontes:

The Guardian, “Google Translate error sees Spanish town advertise clitoris festival”, 3 de novembro de 2015

BBC News, “Google translated Russia to ‘Mordor’ in ‘automated’ error”, 7 de janeiro de 2016

Google YouTube Channel, “Inside Google Translate”, 9 de Julho de 2010